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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Religião e Memória na obra de Allan Kardec

Algumas palavras: nas últimas semanas tenho re-publicado textos que cobrem minha pesquisa sobre Allan Kardec (1804-1869) e que foram ou publicados ou apresentados em Congressos ao longo do ano de 2010. O principal objetivo dessa re-publicação é  oferecer aos leitores do blog a possibilidade de verificarem o modo prático como tenho encarado o ofício do cientista da religião; além, é claro, de fazer novamente a divulgação desses textos. Tudo que um autor deseja é ser amplamente lido e debatido. E, mesmo reconhecendo as muitas limitações desses textos ora re-apresentados e sabendo, que no estágio atual de minha pesquisa, muitas daquelas opiniões neles defendidas precisem sofrer uma ampla revisão, creio que representam um ponto importante de minha reflexão recente.

 

Allan Kardec - Desmoulin

Resumo:

A análise crítica dos escritos de Kardec tem-nos mostrado que, com certeza, este autor desejava que a doutrina e o movimento por ele iniciados tivessem um alcance universal. No entanto, ao contrário desta aspiração, não se pode deixar de notar que não só Kardec funda uma nova religião, como a vincula de maneira irrevogável à tradição e à memória cristãs. Isso fica claro não apenas com a publicação, em 1864, de L’Évangile selon le Spiritisme. Mas, desde a Conclusion de Le Livre des Esprits (1860), quando vincula a nova doutrina ao conjunto dos dogmas católico-romanos, e lhe atribui o caráter de uma chave hermenêutica para a recondução destes dogmas a seu verdadeiro significado. O objetivo deste trabalho é analisar os elementos desta vinculação, discutindo como aquilo que se constitui como o projeto pessoal de Allan Kardec para o espiritismo se converte, ainda durante em sua vida,num movimento de recuperação da memória da religião cristã, principalmente católico-romana, dos “desvios doutrinários”a que teria sido submetida. Um processo que, a meu ver,culminará na cristalização de uma nova identidade para a doutrina dos espíritos, a de“cristianismo redivivo”.

Palavras-chave:

Espiritismo, Allan Kardec, Religião, Memória.

[Essa comunicação foi originalmente apresentada no III Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP, 2010, Recife, e publicada integralmente nos Anais Eletrônicos. Recife : Fundação Antônio dos Santos Abranches, 2010. p. 1240-1252. Para acesso ao texto completo clique aqui].

4 comentários:

Vital Cruvinel disse...

Olá, Augusto!

Ainda não tinha lido este artigo. Seus argumentos são muito fortes na demonstração de que o Espiritismo pode ser entendido como uma transformação do Cristianismo.

Por outro lado, a ressignificação dos conceitos cristãos feito por Kardec torna as bases conceituais do Espiritismo algo muito distinto das bases das religiões cristãs. Veja, por exemplo, a questão da salvação e remissão dos pecados.

Da mesma forma, deve ter acontecido com o desenvolvimento do Cristianismo a partir do Judaísmo. Mas, nem por isso, as religiões cristãs são chamadas de judaicas (ou termo parecido).

O problema na adjetivação de cristão ao Espiritismo me parece ser um problema mais conceitual do que de origem histórica. Este parece ser o pensamento do amigo Milton Medran, um dos principais pensadores cepeanos.

Abraço!

Augusto Araujo disse...

Vital, querido amigo:

Mais uma vez, obrigado pela apreciação honesta e fundamentada de meu trabalho.

Concordamos: a ressignificação dos conceitos cristãos feita por Kardec torna as bases conceituais do Espiritismo algo muito distinto das bases das religiões cristãs.

Na representação kardeciana isso significa o mesmo que a ressignificação pelo cristianismo da "revelação mosaica", que dá base ao judaísmo. E seu raciocínio está correto, a meu ver: "Da mesma forma, deve ter acontecido com o desenvolvimento do Cristianismo a partir do Judaísmo. Mas, nem por isso, as religiões cristãs são chamadas de judaicas (ou termo parecido)".

Quem, contudo, dá a adjetivação de "cristão" ao espiritismo não sou eu, é Kardec. Quem afirma que ele é a terceira revelação da lei de deus em continuidade com a revelação mosaica e com a revelação cristã, também é Kardec Sendo assim, não compreendo a objeção em identificar as raízes de um 'neo-cristianismo' na obra de Kardec. Da mesma forma que o cristianismo poderia ser adjetivado em sua origem como um 'neo-judaísmo' que, historicamente, se desenvolve numa religião distinta; o espiritismo nasceria como um neo-cristianismo que, aos poucos, poderá se converter numa religião distinta.

O equívoco na análise que considera apenas a distinção conceitual dos dogmas espíritas para os dogmas cristãos, para mim, encontra-se no fato de reduzir-se o cristianismo à sua feição 'ortodoxa majoritária' (catolicismo e protestantismo).

Na história do cristianismo houve, por exemplo, movimentos reencarnacionistas. Visto por esse ângulo, mesmo a reinterpretação do dogma ortodoxo da ressurreição como reencarnação, nada mais seria que a revivescência de correntes subterrâneas do próprio cristianismo.

De qualquer forma, nomeando ou não o espiritismo como um neo-cristianismo, o fato é: essa pretensa continuidade-ruptura com o cristianismo instaura o espiritismo na lógica da recuperação da memória religiosa. Ou seja: configura-o como uma religião sucessora (e atualizadora), na representação kardeciana, da "revelação" judaico-cristã.

Um abraço! A.

Vital Cruvinel disse...

Oi, Augusto!

Kardec disse que o espiritismo não era uma religião, mas nem por isso entendemos que não seja. Da mesma forma, ele disse que o espiritismo é cristão mas podemos ou não aceitar esta definição.

As diferenças conceituais entre as bases do espiritismo e do cristianismo me parecem ser grandes o suficiente para fazer frente a gênese do espiritismo a partir do cristianismo.

Do ponto de vista prático precisamos nos perguntar como as pessoas espíritas ou não espíritas, cristãos ou não cristãos, vêem o espiritismo. Por exemplo, será que o evangélico reconhece as bases conceituais do espiritismo como cristãs?

Abraço!

Augusto Araujo disse...

Vital:

Desculpe-me a demora em responder.

Vamos por partes:

1) Do ponto de vista da afirmação identitária de um grupo social, não é absolutamente necessário que haja reconhecimento de instâncias oficiais. Em nosso caso: claro que um evangélico não reconheceria o espiritismo como cristão. Da mesma maneira que o cristianismmo (católico, protestante ou evangélico) reconhece os Testemunhas de Jeová ou os Mórmons como cristãos. Isso, contudo, não impede uns e outros de não apenas se dizerem cristãos, mas os únicos cristãos de fato.

É o mesmo fenômeno que acontece com grupamentos que se dizem espíritas e que têm sua identidade espírita negada pelos seguidores de Kardec e pelas federativas.

2) Compreendo e acato a extensão das diferenças dogmáticas entre o cristianismo hegemônico e o espiritismo. No entanto, a identidade do segundo como herdeiro e continuador do primeiro - e como chave hermenêutica para a correta compreensão da herança dogmática cristã - foi assumida por Kardec.

A questão, para mim, aqui não é tanto: o espiritismo é cristianismo, de fato? Mas, antes, saber se ele é cristianismo - ou neo-cristianismo, ou uma revivescência do cristianismo primitivo como querem alguns - para Kardec.

A resposta a essa segunda questão é positiva. Não apenas 'O Evangelho segundo o Espiritismo', mas 'O Céu e o Inferno' e 'A Gênese, os Milagres e as Predições', são livros que colocam o espiritismo cumprindo o papel de intérprete da tradição cristã para a modernidade.

3) É verdade: Kardec afirmou que o espiritismo não é uma religião, e discordamos dele. Pessoalmente eu o faço porque vejo nessa tentativa de enxertar o espiritismo na árvore da tradição cristã a lógica do surgimento de uma nova religião, baseado na teoria sociológica de Maurice Halbwachs.

Claro que podemos discordar que o espiritismo possa ser classificado como neo-cristianismo. Mas, não podemos negar que Kardec, de certa maneira, faça isso.

Se o espiritismo, hoje, precisa se identificar como 'espiritismo cristão', é outra questão. Uma questão que cabe, apenas, aos espíritas de hoje responder.

Um abraço!